12/10/2017 | 19h22m

Paris

Estados Unidos e Israel se retiram da Unesco

Os Estados Unidos e Israel anunciaram, nesta quinta-feira (12), a sua decisão de retirar-se da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), acusando-a de ser anti-israelense, o que provocou críticas na instituição.

Após vários anos de tensões com esta agência da ONU com sede em Paris e atualmente em processo de eleição de um novo diretor-geral, a porta-voz do Departamento de Estado americano, Heather Nauert anunciou que Washington prevê deixar a organização.

"Essa decisão não foi tomada rapidamente e reflete a preocupação dos Estados Unidos com os crescentes atrasos nos pagamentos (das contribuições) à Unesco, a necessidade de uma reforma fundamental na organização e o contínuo preconceito contra Israel", disse Nauert.

A saída dos EUA será efetivada em 31 de dezembro de 2018, de acordo com as normas constitutivas da Unesco, completa o texto.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, continuará trabalhando com o governo Trump apesar das diferenças, disse o porta-voz da ONU Farhan Haq nesta quinta-feira.

Guterres "lamenta profundamente" a decisão, mas "ao mesmo tempo, é claro, interagimos com os Estados Unidos de forma muito produtiva em uma série de questões através de uma série de organizações e continuaremos a fazer isso", acrescentou o porta-voz, que pareceu minimizar a saída.

"Há momentos em que pode haver diferenças nessa ou naquela questão, mas o secretário-geral trabalha bem com o governo dos EUA", disse Haq.

Pouco depois de Washington, Israel indicou que também vai abandonar a instituição, que qualificou de "teatro do absurdo, onde se deforma a história, em vez de preservá-la".

"Entramos em uma nova era das Nações Unidas: a que, quando se discriminar Israel, terá que assumir as consequências", afirmou o embaixador israelense na ONU, Danny Danon.

No início de julho, os Estados Unidos haviam advertido que analisavam seus vínculos com a Unesco, chamando de "uma afronta à história" a sua decisão de declarar a antiga cidade de Hebron, na Cisjordânia ocupada, uma "zona protegida" do patrimônio mundial.

Na ocasião, a embaixadora americana nas Nações Unidas, Nikki Haley, afirmou que esta iniciativa "desacreditava ainda mais uma agência da ONU já altamente discutível".

Segundo Nauert, o argumento "financeiro" pesou na hora de decidir sobre a saída da institiu. "Temos atrasos de pagamento da ordem de 550 milhões de dólares" na Unesco. "Queremos continuar dando mais dinheiro para uma organização "anti-Israel?", perguntou.

A porta-voz do Departamento de Estado também lembrou que Washington quer uma reforma na ONU.

- Multilateralismo -

Os Estados Unidos já deixaram a Unesco entre 1984 e 2003 e suspenderam sua contribuição financeira em 2011, após a admissão da Palestina como um Estado-membro.

A diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, afirmou nesta quinta "lamentar profundamente" a decisão dos Estados Unidos.

"Lamento profundamente a decisão dos Estados Unidos, cuja notificação oficial foi enviada pelo secretário de Estado Rex Tillerson", escreveu em um comunicado.

"A universalidade é essencial para a missão da Unesco de construir a paz e a segurança internacionais em face do ódio e da violência, através da defesa dos direitos humanos e da dignidade humana", afirmou Bokova.

"É uma perda para a família das Nações Unidas. É uma perda para o multilateralismo", ressaltou a diretora.

A essas reprovações, somaram-se a França - onde está a sede da Unesco - e o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, que lembrou "o destacado papel dos Estados Unidos na Unesco desde sua fundação", em 1946.

Os anúncios de Estados Unidos e Israel chegam em meio à decisiva eleição do sucessor de Irina Bokova.

Os 58 países-membros do conselho executivo vão decidir nesta noite dois finalistas, ou até memso o próximo dirigente da organização.

- Hebron -

O Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco inscreveu, em julho, a Cidade Velha de Hebron como um sítio "de valor universal excepcional". Também colocou esta cidade, localizada nos territórios palestinos, na lista de patrimônios em perigo.

Hebron é o lar de 200 mil palestinos e centenas de colonos israelenses, que estão entrincheirados em um enclave protegido por soldados israelenses perto do local sagrado que os judeus chamam de o túmulo dos Patriarcas e os muçulmanos de Mesquita de Ibrahim.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, descreveu a decisão da Unesco como "delirante".

Poucos meses antes, a Unesco havia identificado Israel como uma força de ocupação em Jerusalém.

* AFP